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Manifestos

Em nome da Mãe. Em nome do Filho.

Por Luiz Fernando Oderich

A Pense num filho. Feche os olhos e escolha o mais simpático, o mais querido. Seja sincero, você está só pensando. Pense naquele que mais se esforça, no mais estudioso, naquele que joga melhor. Pode pensar numa filha. O sorriso mais franco, o rosto mais bonito, o seu xodó. Ah, você não tem filhos. Escolha um sobrinho, a filha da vizinha, um afilhado, uma aluna. Suponha que seja filho único.

Pensou bem? Consegue visualizar seu rosto?Agora não pode mais mudar!

Hoje é Domingo. São duas horas da madrugada. Batem na porta. São seus irmãos, acompanhados das esposas, mais um primo médico. Gela a espinha. Antes que alguém diga algo, você sabe que vem o pior.

Assassinato. Assalto.

Coloque seu filho no lugar do nosso, nesta história.

Chocado. Sim, mas agora e só agora, você tem condições emocionais para entender minhas idéias.

No clarão do estampido deste tiro, que me roubou a vida de nosso amado filho, minha mente vislumbrou tudo que há de errado na estrutura da sociedade brasileira e o que precisamos mudar. Mudar para você, que nos prestou solidariedade. A nós, Mabel e eu, nada de mais precioso resta a perder depois desta tragédia.

A grande mudança é reconhecer a nossa hipocrisia. O Brasil cordial, onde o judeu trabalha ao lado do árabe; onde católicos e protestantes torcem juntos pela mesma seleção, é apenas uma meia verdade.

A grande mudança é reconhecer nosso descaso.

O Brasil não tem inimigos externos. Os internos nos bastam. O brasileiro tem medo de outros brasileiros. Cada vez mais grades; condomínios mais fechados; carros mais blindados; mais seguranças privados. Só que isto não tem futuro. Em algum momento haverá um vacilo.

Pronto, foi-se a vida preciosa.

O Brasil que precisamos é um BRASIL SEM GRADES (exceto as da cadeia). Um Brasil Sem Grades nós vamos conseguir através das transformações sociais. Profundas. Isto é mais do que sair em marcha pública, com camisas brancas. É exigir dos políticos, transformações legais, fugindo da lógica atual que não nos leva a lugar algum.

Há três transformações, que considero essenciais. São profundas e levarão tempo. Nós, que já perdemos nosso único filho, podemos esperar até a eternidade. A presa é sua.

Primeiro. Uma ampla reforma no processo penal. Que puna igualmente os cidadãos. Ricos ou pobres. Analfabetos e doutores. Um país, uma moeda, um povo, uma lei penal.

Devemos reduzir a possibilidade dos advogados mal intencionados fazerem “as tricas e as futricas legais”. Devemos reconhecer que o policial, civil ou militar, é um ser humano igual a nós, que tem família e pode ter medo também. O marginal preso ontem não pode ser solto hoje, para que ele volte a persegui-lo amanhã.

As penas, não podem ter lógica de programa de milhagem, com “bônus, descontos, promoções”. Condena-se a trinta anos, logo a pessoa é solta, com ficha limpa.

Se os juizes soltam é porque a lei permite.

Segunda grande transformação. A paternidade responsável tem de ser PROGRAMA DE GOVERNO. O bom cidadão não é aquele que nasceu de família rica, que freqüentou boas escolas. O bom cidadão é o FILHO QUE FOI AMADO. Quem é pai sabe. A coisa mais difícil do mundo é educar corretamente um filho. O ponto inicial, porém, é DAR MUITO AMOR.

Nas cadeias americanas constatou-se que mais da metade dos presos eram frutos de gravidez indesejadas. Filhos que nunca receberam amor dificilmente darão amor a alguém. E são a matéria prima básica desta revolta, deste desprezo pelos bons valores sociais.

A mesma ênfase que demos ao combate à AIDS, temos de dar à paternidade responsável. Campanhas nos meios de Comunicação, mudanças no atendimento da saúde pública.

Enfrentando com coragem, os preconceitos e as restrições religiosas.

Terceiro. Um SALÁRIO MÍNIMO DECENTE tem de ser um valor da sociedade, assim como respeitar os contratos, manter o equilíbrio fiscal, inflação baixa. Felizmente para nós, brasileiros, é mais uma questão de justiça social do que econômica.

Tem de ser um valor. O resto que mude.

Isto tudo é um sonho.

Ah, que bom. Posso então abraçar meu filho? Posso dar-lhe um beijo grande? Posso parabenizá-lo por sua formatura?

Não a morte do seu filho é real, as idéias são um sonho.

Então, não é sonho, nem realidade. É pesadelo. Se estou errado, breve você terá o “filho papel”. Papel da notícia do jornal, do telegrama, do cartão de condolências, das fotos...

Hoje é domingo. São duas horas da madrugada.A vida não tem talvez.
Não tem “só mais um pouquinho; só mais uma vez”.Não tem replay. Não tem videoteipe.

Você aconchega a cabeça da esposa sobre o peito. Choram juntos. Choram alternados. Choram. Esta dor lancinante que corta o coração.