Jorge Damús Filho (*)
Hoje tomo a liberdade de abordar algo diferente dos assuntos que tratamos nesta coluna nos últimos dias. Quero fazer uma homenagem, fui buscar motivação em pessoas que através de seus gestos e palavras pudessem traduzir sua inspiração no sentido de homenagear nossos entes queridos. Quando pais enterram seus filhos, estamos falando em tempos de guerra. Presto essa homenagem ao meu filho Rodrigo assassinado aos 20 anos de idade em 27/09/1999. No sábado estará fazendo 4 anos sem o Rodrigo entre nós, 4 natais, 4 dias das mães, quatro dias dos pais, 4 anos novos, 4 aniversários dele, 4 aniversários nossos, .......1460 dias sem sua presença no lar e no amor de nossa família. A homenagem faço questão que seja também para milhares de filhos e filhas que foram ceifados das vidas de seus pais pelo crime. Uma verdadeira legião de jovens uma “República de Inocentes”.
Para tentar passar o nosso caminhar sempre, transcrevo o poema abaixo, recebido por minha esposa via internet, cuja autoria desconhecemos, mas que relata a ferida aberta que nunca cicatrizara e um amor sem limites, incondicional que transcende o tempo e o espaço.
Reconstrução
Há momentos em que a Terra toda parece chorar...
A chuva fina cai lá fora e aqui dentro de meu coração.
Por vezes, não é fácil viver nesta Terra.
Mas... é preciso prosseguir!
Se eu estou aqui é porque assim tem que ser.
Estou aqui para sofrer, mas também para ser
Senhor do meu destino, com poder para atuar
frente às dificuldades e lutar pelos meus ideais.
Se o momento é de chorar, tenho que saber que
não é eterno. É mais um momento de luta, de
lutar para me reerguer e reconstruir a minha
vida, minha nova vida.
E, se possível, estar consciente disto a todo o
instante, para não me entregar.
Penso que, mesmo que eu não consiga realizar
todos os meus sonhos, ao menos eu estou
lutando e lutarei até o fim por eles.
Mesmo que, às vezes, sinta que o melhor é me
entregar, mesmo que, por vezes, a dor seja tão
profunda que queira levar com ela toda a minha
força interior, é preciso resistir e caminhar!
Uma singela e, ao mesmo tempo, forte prova de
vida nos dá o sol, astro imponente que se
agiganta no céu, clareando o dia, a natureza,
tudo o que toca...
Tempestades se formam e aparentemente
ofuscam o seu brilho. Mas, contudo, isto é
apenas uma ilusão: ele permanece intacto em seu
lugar, conservando em si toda a nobreza de um
grande astro.
Assim como o sol, porque não sermos também.
Nós uma força que não se entrega? Morrendo um pouco
em cada dor, cambaleando e tropeçando, por
vezes, pelos caminhos, tateando às cegas, temos,
tenho que seguir em frente.
Não posso e nem conseguiria permitir que
tempestades, ciclones, furacões abalassem o meu ser
”o meu brilho”, porque sou maior do que tudo isso.
Sou Filho de um Astro bem mais fulgurante que a
luz de mil sóis. E sou imortal, em semente!
Por isto, devo aceito esta dor que me flagela o
peito como parte do processo da vida.
Uma dor que posso ter e é só minha, e novamente me
reerguer, me fará ter mais consciência do
meu brilho e fortaleza interior.
E essas lágrimas derramadas, com certeza, farão
parte de meus troféus, posto que elas regam meu
jardim interior, para que novos botões tornem a
florescer!
(*) Jorge Damús Filho, pai do Rodrigo
email:
jorge@atequando.com.br